A silenciar-se em escuro

January 5, 2015

         Bate a porta da sala, entra apressado no carro - a mulher o espera no shopping - e, quando aciona o controle para abrir o portão da garagem, vê pela janela da sala a claridade acusatória de uma luz esquecida acesa. Maldiz os detalhes que sempre são cúmplices do atraso, que sempre acontecem para alimentá-lo, para deixá-lo cada vez mais com a redonda aparência de relógio no acúmulo de minutos.

         As palavras da mãe, marteladas na infância, “quem acendeu, apaga” ainda monjolam dentro de si em quieta e onipresente cobrança - e o homem desce do carro, abre a porta e estica mão e ansiedade na direção do interruptor.

         Na migalha de tempo em que desliza o dedo pelo botão, inundando com escuridão o plácido lago de luz, tem a impressão - ou vê - um vulto passar pelo canto do olho.

         O susto faz com que o dedo automaticamente percorra o caminho inverso: e a escuridão é afogada pela torrente a sair da lâmpada no teto.

         Não há pessoa alguma na sala, não deveria mesmo haver, mas o corredor guarda na penumbra a possibilidade de abrigo ao vulto que o homem tem quase certeza de ter visto.

         Pergunta duas vezes em tons crescentes de voz “quem está aí?” e tem do corredor a silenciosa resposta que tanto pode significar ninguém como o desejo de anonimato.

         Caminha lentamente na direção da penumbra; o atraso segue arredondando-se mais e mais com a ininterrupta profusão de minutos; a ansiedade por sair foi substituída pela ansiosa apreensão por um encontro não desejado.

         A respiração saindo como folhas curtas a despegarem de uma árvore, o suor a lhe minar nas mãos numa umidade fria, tem diante dos olhos muito abertos o corredor vestido da penumbra que se alonga em escuridão.

         E um interruptor pronto para gritar uma clara resposta e calar a resposta que insiste em silenciar-se em escuro.

 

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