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  • luishborba

O que há são esquinas

Quando fala, a voz sai pequena como o seu corpo - os braços numa timidez de antebraços; os dedos ainda na infância e ele já velho; as pernas que não levam o tronco muito longe do chão. Tudo nele é comedido, menos o branco nos cabelos - todos os fios entregues à brancura oferecida pelo tempo. Tudo nele comedido e metódico.

Todas as manhãs, um mesmo paletó lhe cobre a magreza, vestindo-o com uma formalidade arranhada por botões que faltam, por um bolso roto, por mangas esgarçadas. Dirige-se até o mesmo banco, na mesma praça, senta-se e cruza as pernas na posição que todas as manhãs o tornaria alvo do cocô dos pombos, se aos pombos agradassem estátuas em carne e osso.

Depois de um tempo, sai caminhando pelas ruas em passos lentos - e seus sapatos gastos agradecem a lentidão.

Durante todo o caminho, para em cada esquina, eleva olhos ao céu, ergue a mão direita e benze o ar, enquanto de seus lábios sai uma expressão audível somente aos anjos.

Os movimentos da mão são vestidos de firmeza, de uma autoridade beata, reafirmada pelo olhar emprestado aos santos. As palavras saem vestidas com a santidade de sua crença, e ungem o espaço com o hálito de sua fé.

Seus olhos jamais cruzam com outros, sua boca é muda a humanos ouvidos. Não há pessoa alguma no mundo. De certo modo, não há mundo.

O que há são esquinas impuras, que a devoção do homem miúdo purifica espargindo bênção.


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