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  • luishborba

Saber as horas insípidas

Todos os dias, bem cedo, a filha o coloca sentado na porta de casa. Antes de sentá-lo, ajeita a cadeira na calçada, conferindo sempre de duas a três vezes sua posição, sua firmeza.

Coloca-o sentado numa pontualidade que dispensa relógio: um automatismo, guiado pela luz do sol na janela da sala, avisa a filha o momento de levar o pai para a porta.

Uma manta fina sobre as pernas é aconchego contra o vento das manhãs; uma almofada acaricia-lhe as costas; uma boina afaga-lhe a cabeça, há muito imersa no inverno da calvície. E, assim, as próximas duas ou três horas serão suaves.

As mãos, retesadas sobre o colo, mantêm entrelaçados os dedos na conjunção permanente de ossos e pele. Os joelhos se tocam numa cumplicidade de articulações. Os pés estão um pouco afastados um do outro numa recusa involuntária de convivência, a aceitarem a esterilidade de passos que a vida lhes plantou.

Nessas duas ou três horas, o movimento da rua vai fertilizar suas retinas: crianças de bicicleta a castigarem os pedais; carros a desfilarem seus corpanzis metálicos, espalhando barulho e fumaça; pessoas, descrevendo nas calçadas, as rotas possíveis de idas e vindas.

Alguns conhecidos param para algumas palavras, que o velho responde com um arquear de lábios, que tanto poderia ser um sorriso quanto uma queixa de dor. E que os olhos enfatizam ser serenidade em brilhos de íris acesas.

Quando o sol lhe atinge o rosto, a filha o recolhe.

Então o resto do dia em penumbras de sala e de quarto, a preencherem o tempo com a insipidez de horas vazias.

Mas a mente fertilizada o ajuda a desfolhar os dias, a despojar a cada noite as horas insípidas e levar, madrugadas adentro, sonhos com os caudalosos rios da rua movimentada - sonhos que apaziguam o lago estagnado de suas mãos e pernas.


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