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  • luishborba

A montanha não quer os homens

Os gritos de dor da terra, ao parir as montanhas, devem ainda ecoar junto a todos os sons que viajam sem descanso pela infinitude de espaços. Não foi sem dor e em silêncio que essas pedras enormes acharam seus lugares no mundo.

A paz, que já dura séculos, sente-se segura entre as pedras e se espalha. Assim, deixam de existir latitudes e longitudes - em todas as direções há o perfume sem cheiro do corpo informe e intocável da paz.

Nesse ponto em paz do sul, os homens criaram a trilha que leva aos pés da mais alta das pedras. Marcaram tanto a terra com seus passos que o mato desistiu de lhes cobrir as pegadas. Demarcaram parte do caminho com os cascalhos que aceitam, resignados, ficarem perfilados como um exército perenemente imóvel, a vigiar a humana passagem. Os homens ainda construíram pontes de madeira para vencerem a tentativa dos riachos de bloquear o caminho - e as águas creem que os olhos, que as admiram, na realidade zombam do bloqueio malsucedido.

Um bosque, acostumado com a visita de vacas e cavalos selvagens, vê com estranheza a conjunção das carnes humanas com as das árvores quando as pessoas buscam os troncos para repouso.

De repente, o chão começa a ficar salpicado por neve. Estende-se cada vez mais pelo percurso uma camada branca, que range sob as botas resmungos por sua alva integridade rompida.

Então, uma subida que coleta fôlegos e não os devolve, leva à proximidade da montanha de pedra.

Sob suas ordens, o vento, que ao longo do trajeto ameaçava, agora fustiga; o frio, que deixava o sol açoitá-lo e até espantá-lo, morde a pele com afiados dentes, que não desgrudam.

A montanha assiste a humana debandada.

E cercada por milenares súditos, paridos sob o mesmo grito que a gerou, não se interessa por adoradores de carnes fracas - seres que fogem assim que o vento e o frio engrossam a voz.


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