Buscar
  • luishborba

Dias práticos

Fecha a porta do carro com violência. O marido reclama, e esse é o terceiro desacordo do dia. Presa em sua cadeirinha no banco de trás, a criança não percebe o desentendimento dos pais, repetindo em voz baixa “eu quero vê minha avó…eu quero vê minha avó…”. Sobe o tom e a veemência ao ver o pai dar partida no carro e a casa dos avós ser deixada para trás.

Na terceira insistência exaltada da menina, a mãe a manda calar a boca, mas ela apenas volta ao tom anterior.

O caminho para casa é feito em silêncio, a menina preocupada em ajeitar a roupa de sua boneca.

O domingo já acabou. O que resta são fiapos de horas pastosas, donas de minutos que serão diluídos diante da TV numa passividade de corpos largados no sofá à espera do momento em que a cama traga à casa o silêncio.

Normalmente dormem cedo. O fim do capítulo da novela lhes marca o fim do dia como uma ordem muda, um toque de recolher inquestionável e prático.

Durante a semana, a menina dorme, na maioria dos dias, ao meio do capítulo, cansada pelo dia na escolinha. A mãe a leva para a cama e o casal termina de assistir à novela na TV do quarto, na praticidade de poderem ir chamando o sono. Os intervalos servem para se prepararem para dormir: ir ao banheiro, escovar os dentes, um último copo de água.

Os assuntos do dia, que passaram distantes um do outro, são tratados em frases soltas e em momentos aleatórios, em meio às músicas da escolinha que a criança canta. Muitas vezes a falta de paciência de ambos encerra a conversa com um ou dois gritos - é mais prático e menos cansativo não alongar discussões.

Vivem assim numa combinação afinada, a empilharem com praticidade as obrigações dos dias.

E para quebrar os dias iguais, seguidos por noites iguais, reservam as noites de sábado para os desencontrados prazeres de uma intimidade às escuras.


4 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

O que há são esquinas

Quando fala, a voz sai pequena como o seu corpo - os braços numa timidez de antebraços; os dedos ainda na infância e ele já velho; as pernas que não levam o tronco muito longe do chão. Tudo nele é com

Saber as horas insípidas

Todos os dias, bem cedo, a filha o coloca sentado na porta de casa. Antes de sentá-lo, ajeita a cadeira na calçada, conferindo sempre de duas a três vezes sua posição, sua firmeza. Coloca-o sentado nu

Tudo (quase) como sempre

A manhã bateu, como sempre, pancadas de débil luz na janela do quarto. Levantei-me devagar, como de costume, para não te acordar. Lembrei-me. Olhei o seu lado da cama, e o travesseiro intacto, a colch