Buscar
  • luishborba

Lagos e Mares

Faltam dez minutos para as duas e meia da tarde, horário em que se iniciam as visitas diárias, e a mulher está pronta. Na verdade, já está pronta há vinte minutos.

Sentada em uma cadeira na varanda, olha a movimentação dos outros idosos, a buscarem seus lugares de sempre. A repetição os embala numa calmaria de lagos - aos velhos sobram apreços pelos lagos e desassossegos pelos mares.

Mãos postas sobre as coxas, vez ou outra a mulher abre os lábios num suspiro curto, puxa o ar em leve ansiedade pela espera. E ela não quer borrar o batom, por isso o movimento cuidadoso dos lábios.

Sua filha tem sido uma das primeiras a chegar. Caminham juntas pelo jardim, conversam um pouco, ela não reclama muito, pois quase não há do que reclamar. De vez em quando, a filha traz suas duas netas. Mas há dias em que ela não tem paciência com a agitação das meninas - sempre o desejo pela calma do lago às espumas brancas do mar agitado. O genro ainda não a visitou, veio apenas quando a trouxeram, três semanas atrás.

Teve receios ao chegar. Não sabia como os outros a receberiam, como seria dividir quarto com duas estranhas. Mas após dois anos de viuvez, fora convencida pela filha a se mudar para o asilo. Não conseguia viver só.

A timidez lhe foi aliada. Passou os primeiros dias pelos cantos, observando a movimentação, conhecendo os hábitos e a rotina. Claro que as visitas diárias da filha a têm ajudado. E a convivência com as companheiras de quarto tem sido boa.

Há idosos que todos os dias tomam seus lugares à espera dos parentes, que acabam não vindo. Mas a espera é barco distraído que não se percebe naufragar. Alguns nem saem de seus quartos, buscando distância do burburinhos que não lhes pertence.

São dez para as três: sua filha está atrasada. Ontem ela não veio e segunda se atrasou também. O receio de que não venha hoje é a cria do medo em esperar pelo amanhã.

Pois os lagos dos que ficam nos quartos durante as visitas são calmos, mas imersos num silêncio tão tenebroso como o mais encrespado dos mares.


0 visualização0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

O que há são esquinas

Quando fala, a voz sai pequena como o seu corpo - os braços numa timidez de antebraços; os dedos ainda na infância e ele já velho; as pernas que não levam o tronco muito longe do chão. Tudo nele é com

Saber as horas insípidas

Todos os dias, bem cedo, a filha o coloca sentado na porta de casa. Antes de sentá-lo, ajeita a cadeira na calçada, conferindo sempre de duas a três vezes sua posição, sua firmeza. Coloca-o sentado nu

Tudo (quase) como sempre

A manhã bateu, como sempre, pancadas de débil luz na janela do quarto. Levantei-me devagar, como de costume, para não te acordar. Lembrei-me. Olhei o seu lado da cama, e o travesseiro intacto, a colch