Buscar
  • luishborba

As horas mesmas

Os dias são feitos banais com horas mesmas, a se empilharem umas sobre as outras com a cumplicidade incansável dos minutos.

A rotina se aproveita da calmaria e instala seu corpo cheio de pontas em todos os espaços dos horários: estabelece o fim do sono com gritos do despertador, espreme o tempo do almoço entre obrigações que julga importantes, enquadra o lazer numa tela de TV.

Assim, os dias se tornam a planície de um deserto - a imutabilidade de uma paisagem assolada pelos ventos das horas e onde, vez ou outra, salpicam oásis e tempestades de alguma novidade.

As pessoas cruzam, intercalam, justapõem seus desertos numa convivência de rotinas. E, em sua maioria, usam as noites para mudas conversas de descanso, distribuindo, no longo corpo sem luz das madrugadas, a convergência da paisagem de seus sonos.

Os meses tornam-se então um acúmulo de números a se renovarem a cada trinta, trinta e um numa constância de marés.

Nesse desfile monocromático dos dias, a previsibilidade é uma vantagem a afastar os sobressaltos, que somente ocasionalmente furam o bloqueio e se intrometem para atrapalhar a cadência dos passos. Mas o previsível pode também ser nuvem a eclipsar o sol das boas novas, impedindo o reconfortante calor das emoções.

Pouco se pode contra quando se instala o acomodamento às vergastadas dos ventos das horas mesmas; quando se aceita sem mais nada a planície tediosa do deserto da rotina; quando o não querer ver torna-se a cegueira voluntária.

Servo de si mesmo é aquele que manda no que faz.


1 visualização0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

O que há são esquinas

Quando fala, a voz sai pequena como o seu corpo - os braços numa timidez de antebraços; os dedos ainda na infância e ele já velho; as pernas que não levam o tronco muito longe do chão. Tudo nele é com

Saber as horas insípidas

Todos os dias, bem cedo, a filha o coloca sentado na porta de casa. Antes de sentá-lo, ajeita a cadeira na calçada, conferindo sempre de duas a três vezes sua posição, sua firmeza. Coloca-o sentado nu

Tudo (quase) como sempre

A manhã bateu, como sempre, pancadas de débil luz na janela do quarto. Levantei-me devagar, como de costume, para não te acordar. Lembrei-me. Olhei o seu lado da cama, e o travesseiro intacto, a colch