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  • luishborba

O fôlego dos ventos

Nesta manhã, impressiona o fôlego do vento, incansável nas cabeçadas que distribui pelas paredes e muros; na intenção embaralhar as folhas das árvores; nas ameaças às luzes apagadas das ruas, que chacoalham insegurança nos postes.

Impressiona ainda a tenacidade da velha em varrer, na calçada, as folhas que não conseguiram se manter agarradas aos galhos; o esforço para amontoar o lixo que se esparrama sem ruído. Sua vassoura enfrenta o vento sem conseguir domá-lo, apenas negocia tréguas e, durante elas, enche uma pá e um saco de lixo.

Todas as manhãs, a velha traz vassoura, pá e saco de lixo para a porta

de sua casa. Em dias chuvosos, a impaciência a visita, e lhe cobra tanto uma atitude, que ela chega a enfrentar os pingos, se eles não são muito grossos.

Além da calçada, hoje é um dos dois dias da semana em que a casa recebe da velha atenções de limpeza. Todas as segundas e quintas-feiras ela faxina todos os aposentos, lava o banheiro. De primeiro, deixava o cão preso do lado de fora, mas os protestos do animal eram tão veementes que ela resolveu lhe dar uma chance - e ele tem se comportado bem. Vivendo somente os dois, não lhe foi difícil ensinar ao cão as regras da casa.

Escolhera as segundas e quintas porque queria a casa limpa aos finais de semana, quando a filha trazia os netos para visitá-la - e as crianças sempre deixavam alguma bagunça esparramada pela casa.

A filha se mudou de cidade, mas a rotina da limpeza foi mantida - a velha e o cão se adaptam bem às rotinas.

Nesses dias, gosta de dar atenção especial aos porta-retratos espalhados pela sala. Espana um a um, passa-lhes um pano úmido, clareando qualquer embaçamento nos vidros das molduras que guardam filha, netos, marido.

Tem muito medo do vento que sopra para um abismo a memória dos velhos.

Vento com muito mais fôlego do que o de qualquer manhã.


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