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  • luishborba

Memórias nadam em lagos

Quando o marido disse “não acredito”, a mulher desviou os olhos da vitrine porque a curiosidade tem preferência na atenção.

Fazia alguns segundos que ela esparramava indecisão diante das sandálias, polvilhando o espaço com ameaças de entrar na loja. Ameaças criadas pela atenção dividida entre dois modelos, talvez três - há um que ela vira pouco antes de ouvir o espanto do marido.

“Olha quem tá aqui”, completa o marido, cheio da surpresa que ainda não chegou à esposa.

A mulher então vê o homem que se aproxima e o espanto cai sobre si como chuva gelada em dia frio.

Ela ajeita o cabelo atrás da orelha, volta a olhar as sandálias, mas na realidade apenas passa olhos pela vitrine.

Antes que se decida por entrar na loja, o marido divide com ela o espanto com o encontro, perguntando-lhe se ela se lembra do homem, que agora interrompe o fluxo de pedestres e olha o casal.

A mulher diz “claro, me lembro”, estende a mão ao homem. Suas mãos quase não se reconhecem no pouco mais de um segundo em que ficam unidas. Soltam-se e ela leva a indecisão que alimentava diante da vitrine para dentro da loja.

O marido e o homem passam a gastar os minutos revolvendo águas há muito adormecidas. Águas do lago de uma convivência perdida em meio à folhagem da floresta que o distanciamento criou. Viram e reviram essas águas escuras, jogando-lhes a luz das lembranças. Encharcam-se nesse lago de águas, agora, mais claras; lago pouco a pouco liberto da floresta do esquecimento.

Prometem-se se encontrarem com mais tempo. O homem olha para dentro da loja, vê a mulher com uma sandália na mão, diz ao marido que lhe deixe um abraço.

Revirando suas próprias lembranças, a mulher visita o lago de suas memórias com o homem.

Lago turvo que faz com que ela olhe para a sandália, mas veja apenas, nadando em profundezas, memórias proibidas.


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