Buscar
  • luishborba

A surdez por piedade

Confinados em um engradado preso à garupa de uma moto, quatro frangos espremem penas e bicos, espalhando protestos ao longo da estrada de terra. Solavancos do caminho jogam uns contra os outros, fazendo-os se abraçarem em desacertos de asas.

Tão logo chegam ao sítio, o homem os coloca junto a outros cinco frangos em um galinheiro. Com mais espaço, as aves espalham cacarejos e bicam a terra em ânsia com cadências de monjolo.

Meia hora depois, mais cinco frangos chegam. O espaço torna-se um pouco apertado, e logo surgem desavenças, alardeadas em gritos e voos curtos, que terminam contra a tela do galinheiro.

Apesar de esperarem nada em manhã alguma, a manhã dessa sexta lhes traz a surpresa desse encontro, o compartilhamento de uma terra nua, a lhes entregar, com a insistência das bicadas, os bicos vazios.

Com sorte, pode ser que haja uma chuva de quirela. Mas os frangos não sabem olhar o céu e predizer se haverá a nuvem da mão que a espalharia.

Por isso, seguem cutucando o solo, continuam a se cruzarem no descaminho de seus passos sem ordem, chocam-se e reclamam.

O sol custa a esquentar o dia, mesmo escoltado pela liberdade azul de um céu sem nuvens.

Isso não interessa às aves, que logo já se esfregam asas, bicando juntas os parcos palmos de terra esgotada numa cumplicidade de penas.

À pouca distância, uma faca sobre uma mesa, um tacho cheio de água quase fervente anunciam a brevidade da manhã de sexta para os frangos. Em realidade, dizem que doravante haverá a ausência perene de todas as suas manhãs.

Anúncio e dizeres que eles não ouvem, fazendo-os aguardar o destino como quem não o conhece.


5 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

O que há são esquinas

Quando fala, a voz sai pequena como o seu corpo - os braços numa timidez de antebraços; os dedos ainda na infância e ele já velho; as pernas que não levam o tronco muito longe do chão. Tudo nele é com

Saber as horas insípidas

Todos os dias, bem cedo, a filha o coloca sentado na porta de casa. Antes de sentá-lo, ajeita a cadeira na calçada, conferindo sempre de duas a três vezes sua posição, sua firmeza. Coloca-o sentado nu

Tudo (quase) como sempre

A manhã bateu, como sempre, pancadas de débil luz na janela do quarto. Levantei-me devagar, como de costume, para não te acordar. Lembrei-me. Olhei o seu lado da cama, e o travesseiro intacto, a colch