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  • luishborba

Quando a vida está nublada

Mais uma vez eu tenho de acudir os meus pais.

O que se faz quando seu pai liga e diz “preciso de você”? Eu não sou capaz de dizer “tudo bem, mês que vem estou aí”. Tranquei minha casa e vim ao encontro deles o mais rapidamente que pude.

Como da outra vez, foi a mesma conversa de cansaço, sua mãe tá sem paciência, é muito serviço pra duas pessoas.

Já cansei de dizer para ele vender isso, bar não é coisa para dois velhos. Mas o dinheiro vai pingando, a aposentadoria é pouca, eles se acomodaram numa rotina que seria vazia sem a convivência com os bêbados de sempre.

O mais difícil para mim é morar novamente com eles. Para um homem com mais de trinta anos, a casa dos pais deve ser lugar de visita. Não há “o quarto continua sendo seu”, pôster na parede, cama arrumada capaz de trazer a intimidade dos anos de infância.

Avisei que não vou ficar por muito tempo. Da outra vez, fiquei por mais de um ano preso aqui, em meio a doses de cachaça, copos sujos, porções baratas. Os bêbados não são meus.

Sorte que precisam de mim num momento em que minha vida está meio fora dos trilhos.

Faz quatro meses que perdi o emprego, aluguel atrasado, contas antigas comendo a maior parte do seguro-desemprego. Espero arrumar alguma ocupação antes do ano e tanto que demorou quando estive aqui.

Da outra vez, foi após seis meses que eu estava desempregado que meu pai me ligou, pedindo que eu passasse um tempo com eles.

Meus pais têm sorte de precisarem de mim quando minha vida não está bem.

E não deixa de ser sorte minha sempre estar em dificuldades quando meu pai me chama. Nas duas vezes, pouco tempo depois de eu reclamar das dificuldades pra minha mãe.

Nunca conversei com meus pais sobre isso.

Mas são engraçadas algumas coincidências da vida.


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