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  • luishborba

Por entre os dedos

Dentro do copo, o líquido claro e insípido balança ao ritmo da desatenção da mulher. Dá voltas sobre si mesmo, cria líquidas elipses, hipérboles e parábolas na vertigem de moldar-se aos movimentos erráticos da mão.

A mulher segura o copo como se alguém o tivesse colocado em sua mão desde que lhe indicaram um lugar à mesa, como se ele fosse um apêndice natural que causaria estranheza aos seus dedos não tê-lo entre eles.

De vez em quando, leva-o à boca, molha os lábios na precisa quantidade do gole habitual, passeia a língua pelo lábio superior, pelo inferior, roda o líquido dentro da boca com conversas gustativas em busca do sabor etílico. E a língua nos lábios, as reviravoltas do líquido em sua boca trazem o não gosto da água.

A mulher faz um muxoxo, olha para os lados, entrega um meio sorriso para uma mulher a sua frente. Ameaça colocar o copo sobre a mesa, mas o mantém na mão - as pontas de seus dedos embranquecem com a força de seu protesto contra o copo.

Cochicha com o marido, que conversa com os dois homens sentados a sua frente. O homem que falava suspende a frase, deixa o raciocínio órfão das palavras que o completariam na espera de que o marido dê atenção à mulher. Mas ele faz que não a ouve, segue olhando o homem que falava como se a pausa em sua fala fosse abismo que não lhe dissesse respeito.

A mulher insiste, cochicha e o cutuca. Sem olhá-la, o marido pega a garrafa para completar-lhe o copo com água. A mulher desvia o copo, morde o lábio, arma um esboço de sorriso para as pessoas da mesa, mas ninguém vê.

O homem que falava liberta as palavras que esperavam serem ditas, o marido volta a garrafa para a mesa, a mulher segue agarrada ao copo, ancorada à mesa.

Mesa em que o jantar demora, as pessoas falam muito e o marido se recusa a fazer ao garçom o sinal que traria sabor etílico a sua bebida, companhia que lhe salvaria a noite.


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