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  • luishborba

A lisa superfície do dia

Três homens, dois copos com pinga e uma TV - uma apresentadora fala há quase vinte minutos - fazem companhia à mulher.

Há ainda mesas vazias, cadeiras desocupadas, cartazes empoeirados anunciando promoções vencidas, salgados aquecidos no aconchego de uma estufa. São espectros que recebem, vez ou outra, a atenção da mulher. Deixam-se ficar como ela os dispõem, envoltos na paciência da espera por alguém que a mulher chama de cliente.

O dia começou com o mesmo cheiro de todos os dias, a emanar da onipresente escuridão que habita o bar, quando a mulher abriu a porta. Cheiro que a convivência por tantos anos faz com que a mulher não mais o sinta - ele aninhou-se nela, recolhendo asas e desistindo de voos para além da escuridão.

O cão, que a espera todas as manhãs, demorou-se a aparecer, talvez perdido nas franjas do sono, a fazê-lo ainda bocejar preguiças. A mulher não lhe tinha dado falta. E olhou para ele como quem olha a lisa superfície de um dia banal. Como sempre, o animal ronda o ambiente e vai sentar-se à porta. Dali só sairá em curtas investigações à vizinhança.

Os três homens foram embora, restam-lhe por companhia os dois copos vazios e a TV - a apresentadora agora enfileira ingredientes de uma receita que irá tomar bem uns cinco minutos para ser explicada. Desatenta, a mulher passa um pano úmido no balcão apenas porque o pano está ali e ela acha por bem usá-lo.

Um menino entra com a pressa das visitas rápidas e lhe pede um pacote de salgadinho. Pega o dinheiro da criança, devolvendo-lhe duas moedas tiradas de uma gaveta de madeira quase emperrada, e o vê zarpar com a euforia dos libertados.

O meio da tarde traz na TV uma novela antiga, exibindo um drama pelo qual nem a mulher nem um homem, que bebe cerveja e pinga, demonstram interesse. O homem beliscou uma linguiça frita, que ela cortou em rodelas, e está a menos de meia garrafa de deixar-lhe de ser companhia.

Logo, a noite se unirá à escuridão do bar. E uma luz fraca e uns homens bêbados se juntarão à TV para serem as companhias a encerrarem a vastidão solitária de mais um dia.


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