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  • luishborba

As horas não cabem nos minutos

A tarde aproxima-se de marcar quatro horas e a movimentação das pessoas deveria ser muito maior do que o burburinho de vozes que se ouve, incapaz de abafar o vento, se ele resolvesse passar, anunciando-se.

Nesse momento, deveria haver choros mais convulsivos; haveria pálpebras a se comprimirem com fervor em orações pelo morto, enquanto as vozes levariam preces ao céu branco de um teto baixo, às flores, às velas, aos ouvidos do Cristo preso à parede, aos ouvidos surdos por quem elas pedem.

É a hora em que os homens da funerária teriam chegado e, depois de breve tempo para que as pessoas os notassem, estariam apertando os parafusos dourados da tampa de madeira. E teriam deixado, logo à porta, o carro de portas abertas, na espera impaciente pelo corpo que já não mais tem pressa.

Esse é o momento da despedida em que os segundos espetam com ponta fina a alma dos que ficam. O momento em que os suspiros se represam nas gargantas sem forças para saírem pelas bocas, trazendo dores aos olhares e aos peitos dos que se despedem.

Serenadas as orações, a convulsão de pessoas tomaria, com dominada ansiedade, a direção do cortejo lento e final.

Mas já passa das quatro horas da tarde e as velas seguem em meia vida, acumulando parafina aos seus pés; as flores anunciam definhamento em avisos de cheiro; as pessoas acomodam-se pelos cantos, murmurando frases subordinadas ao respeito; o Cristo e o morto seguem solenes.

E tudo porque a mãe pediu para que o filho não fosse enterrado hoje.

Sentada, vez ou outra ela se levanta e alisa o véu que cobre o rosto do rapaz.

Despede-se usando os minutos como um consolo breve de todos os anos passados juntos, que para mim foram poucos, meu filho, foram muito poucos.


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