Buscar
  • luishborba

O tempo dura

Têm sido tempos calmos.

Faz mais de um mês que ela não ameaça ir embora, que ela não enche a casa com gritos, que suas mãos e pés não espalham copos e louças, tornando-os cacos. Ela já chegou a quebrar o blindei do banheiro. Mas foi uma vez só. Ele ficou preocupadíssimo que ela tivesse se machucado. Até hoje não sabe como ela quebrou aquele vidro grosso.

Ele tem chegado tenso em casa. Abre a porta da sala e já olha a mesa de centro, os vasos perto da parede. Uma certa tranquilidade o acompanha casa adentro quando os vê intactos.

Nesse mês e tanto de calma, ela reclamou de quase nada, só uma ofensazinha aqui, outra ali; um resmungo sobre ele não ser rico; lança um olhar atravessado quando ele faz algum comentário, junto com um pedido de “dai-me paciência…” - a paciência tem vindo, e ele, mesmo sem saber a quem, agradece.

Assim como agradece não terem tido filhos. Lembra-se de que sofria quando seus pais brigavam. Seria muito pior se ele tivesse de proteger as crianças dos cacos, isolá-las dos gritos, ensinar-lhes, dentro de casa, o que é a fúria.

As pessoas lhe perguntam como suporta, por que ele mesmo não vai embora. Um vizinho já o parou na calçada para saber se não precisava de ajuda. Na maioria das vezes ele sorri e diz que tudo está bem.

Ninguém entende o quanto valem os momentos de doçura dela; os instantes em que a raiva se torna choro convulsivo no ombro dele; a sensação quente do corpo dela, que ele, às vezes, aperta contra o seu; o sabor da boca dela nos minutos de arrependimento.

Ninguém conseguiria compreender a saudade de quando ela o abraça, de quando ela o abraça e o tempo dura.


4 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

O que há são esquinas

Quando fala, a voz sai pequena como o seu corpo - os braços numa timidez de antebraços; os dedos ainda na infância e ele já velho; as pernas que não levam o tronco muito longe do chão. Tudo nele é com

Saber as horas insípidas

Todos os dias, bem cedo, a filha o coloca sentado na porta de casa. Antes de sentá-lo, ajeita a cadeira na calçada, conferindo sempre de duas a três vezes sua posição, sua firmeza. Coloca-o sentado nu

Tudo (quase) como sempre

A manhã bateu, como sempre, pancadas de débil luz na janela do quarto. Levantei-me devagar, como de costume, para não te acordar. Lembrei-me. Olhei o seu lado da cama, e o travesseiro intacto, a colch