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  • luishborba

Pedras

Enfim o sossego.

Todas as pedras que lhe competem foram mais uma vez carregadas ao topo do Fim do Dia e esperam a noite para guiá-las novamente montanha abaixo.

Acaba de chegar em casa e ouve o escuro dizer-lhe a ausência da mulher, certamente ainda ocupada em levar suas próprias pedras ao topo.

Nem o susto com a luz, que o homem acende ao entrar na casa, espanta-lhe o cansaço, apegado ao seu corpo em promessas de paixão irrestrita.

Vai até a cozinha, criando um rastro luminoso em pegadas de luzes acesas. Pega um copo no armário, enche-o com água e o entorna na boca com tanta pressa que um fio líquido lhe escorre pelo queixo e pescoço para se represar no leito da gola de sua camiseta.

Tem fome. Mas, sem a mulher, o fogão é um corpo frio, incapaz de murmurar sílabas quentes a criarem o discurso de um jantar.

Enfim o sossego.

Respira o sossego no qual ele não pensa. O sossego fresco e antigo como o de todas as noites, e que guarda o cheiro da idade de seu antigo e imutável corpo, fazendo o homem sentir a paz amorfa de estar livre. O sossego de não precisar pensar, por hoje, na montanha e nas pedras, que estremecem, pois o avançar da noite já ensaia empurrá-las montanha abaixo. Mas resistem, apegando-se ao longo monólogo de escuridão que têm de atravessarem.

Alguém passa na rua.

O homem o sabe pelo modo como o cachorro late a raiva por todos os estranhos - tem o cão também suas pedras para carregar ao topo da montanha de todos os dias.


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