Buscar
  • luishborba

Tudo o que se deixa

As batidas na porta do quarto soaram tão alto no corredor do hospital que ela se imaginou culpada por perturbar todos os pacientes daquela ala.

A porta é aberta, o rosto contrito da amiga emerge por entre a fresta como se temesse a visita que chega.

Entra, a amiga a abraça numa lentidão apertada, cola o rosto ao seu e, de repente, sente sua face direita molhar-se. A anfitriã enxuga os olhos apressada e fecha a porta.

Além da amiga, recebe-a uma penumbra envergonhada, que se deixa banhar pela insistência da claridade do dia, a achar espaços na persiana.

Em meio à incerta névoa de luz e escuro, a mulher vê o marido da amiga dormindo. Sobre o leito, um crucifixo fala, há muito anos, a silenciosa prece de uma proteção que todos os doentes esperam, nem todos conhecem.

Quando a mulher se prepara para perguntar como o homem está, ele pisca, gira a cabeça sobre o travesseiro - e, pelo modo como o faz, parece que move o peso do mundo. Corre olhos nas duas mulheres e suspira no esforço dos que se apegam à vida: o ar sai-lhe da boca numa agonia quase indecisa entre entregar-se e lutar.

A esposa abre um pouco a persiana, jogando no quarto a luz, que procura todas as brechas para se impor. Aproxima-se do marido, toca-lhe o braço, murmura algo em seu ouvido, volta-se para a mulher com um sorriso misto de desespero e confiança de que está tudo bem.

A mulher vê a amiga alisar a face macilenta do marido, uma pele que parece sem poros, branca e vidrada na significação do sofrimento. Alisa a face e segura a cabeceira da cama tão firmemente que o sangue lhe escapa das pontas dos dedos.

O homem fecha os olhos, a esposa se aproxima da mulher e maldiz, em voz baixa, a hora em que acreditou no telefonema anônimo que recebera.

A mulher consola a amiga, afagando-lhe os cabelos, morde os lábios, à procura do que dizer.

Mas tudo o que consegue fazer é olhar o crucifixo e pedir, em silêncio, perdão, enquanto as tenazes do remorso lhe apertam as entranhas.


6 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

O que há são esquinas

Quando fala, a voz sai pequena como o seu corpo - os braços numa timidez de antebraços; os dedos ainda na infância e ele já velho; as pernas que não levam o tronco muito longe do chão. Tudo nele é com

Saber as horas insípidas

Todos os dias, bem cedo, a filha o coloca sentado na porta de casa. Antes de sentá-lo, ajeita a cadeira na calçada, conferindo sempre de duas a três vezes sua posição, sua firmeza. Coloca-o sentado nu

Tudo (quase) como sempre

A manhã bateu, como sempre, pancadas de débil luz na janela do quarto. Levantei-me devagar, como de costume, para não te acordar. Lembrei-me. Olhei o seu lado da cama, e o travesseiro intacto, a colch