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  • luishborba

O homem mais rico

“Jesus Cristo é o homem mais rico do mundo”, grita o homem, enquanto seus braços se abrem em parábolas a quererem-se infinitas.

A premência e importância do aviso impedem-no de ficar parado: move-se de lado a outro na aflição dos iluminados.

“Jesus Cristo é o homem mais rico do mundo”, torna a berrar, girando o rosto, espalhando sílabas ungidas de messianismo.

Estivesse ele em praça pública, Bíblia em mãos, um terno cobrindo sua magreza, algumas pessoas se juntariam em torno de sua esqualidez frenética, ouviriam atentas a tremulação de sua voz, carregada de preocupações proféticas.

Mas ali, em uma rodoviária, todos os passos se desviam da histeria de sua loucura, todos os rostos evitam-lhe os olhos acesos, cheios da veemência dos que ouvem trombetas.

É noite, a escuridão dá ares definitivos ao mundo, torna as urgências mais urgentes, seduz os pecadores, alimenta os problemas com a fertilidade das preocupações. Assim, as parábolas dos braços do homem têm o desespero dos afogados, sua voz precisa despertar os outros antes do Sono Eterno.

“Jesus é o homem mais rico do mundo”, ele grita, segurando pelo braço um distraído que olha a chegada dos ônibus.

O distraído se assusta, dá um salto de lado, desvencilha-se da mão que o prende, escapa sob a chuva de avisos a persegui-lo: “o mais rico que já existiu”, a mão do homem apalpando o ar em busca do braço perdido, na aflição de segurar uma alma que poderia ser salva, mas que escapa.

O homem vira-se para um outro, que passa ao lado, e solta a explicação definitiva: “ele pode comprar tudo que existe assim, ó”, estalando o dedo e mostrando a ligeireza com que as coisas que parece serem de outro mundo podem, na verdade, serem deste.


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