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  • luishborba

Cansaço

Ainda ontem, o homem olhava a grama crescer, exigindo-lhe urgências. Fazia bem uns quinze dias que ele encarava o jardim e repetia em voz alta “tá precisando cortar a grama”, como a esperar que alguém o obrigasse a resolver a situação.

O cortador manual, guardado no fundo do quintal, alimentava silêncios de lâminas, ainda manchadas por restos de corpo verde de seu último passeio pelo jardim. Encostado à parede, permitia-se a companhia de algumas aranhas que, desavisadas da efemeridade de suas teias, insistiam em tecê-las pacientemente.

Uma falta de ânimo apertava-lhe os músculos na mesma intensidade do incômodo com a grama, que não parava de crescer. Sofria com o cansaço dos ossos por tantos anos, ouvia a promessa de rebeldia de suas costas, caso ameaçasse curvar-se sobre o cortador.

De modo que lhe era muito conveniente o silêncio das lâminas, entregues às aranhas em diálogos de insetos presos às teias.

Há cerca de uma semana, durante dois dias, o céu discursou chuva ininterruptamente, com breves e eventuais monólogos de trovões. Junto com o céu, o mundo parecia desmanchar-se em água. E o homem pensou que seria o fim do jardim, a lenta morte da grama por afogamento, com o barro recusando-se a sustentar-lhe as raízes.

Bastaram dois dias de sol para que, além de não morrer, a grama crescesse com mais avidez.

Ele notava o veludoso tecido das folhas ficarem mais verdes, eriçarem-se como pêlos de um corpo excitado por estímulos sem fim. E sofria com a grama que precisava ser cortada, com o desânimo a lhe congelar as vontades, com as dores pelo corpo agradecendo todos os silêncios.

Hoje pela manhã, quando não despertou e lhe puseram aos mãos ao peito, não tinha mais a chance de fazer o que decidira: atender ao cansaço e deitar-se no jardim.

E, apurando ouvidos, ouvir a grama crescer.

Tinha a certeza de que conseguiria ouvi-la crescer.


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