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  • luishborba

Na sombra de todo o dia

O sol começa a rondar a árvore, tentando achar um ponto fraco na defesa das folhas, a criarem no chão um negro oceano de sombra. E, nesse oceano, as pessoas, incentivadas ainda pelo frescor do vento, aninham-se.

Uma mulher morde um pão envolto num guardanapo, beberica goles quentes de um copo plástico, derramando pelo olhar um sono a acompanhá-la desde casa; três pombos ciscam o chão, passam por entre as pernas da mulher, martelam bicos sob o banco onde ela está sentada, voltam ainda martelando numa ansiedade por farelos; com a mão direita, um velho esgravata os dedos da mão esquerda, deixando solta a língua para fora da boca em contorcionismos de esforço; um homem, ao deitar pelo chão o olhar vago de muitas incertezas, esparrama angústia.

O sol rodeia a árvore, que resiste à investida sem cansaço dos raios.

Um vendedor de sanduíches caseiros, vez ou outra, solta um grito indecifrável, que escapa da proteção da sombra e procura ainda a fome daqueles que passam; agora já devem ser mais de dez pombos, é difícil contá-los: seus bicos os arrastam de lado a outro numa famélica curiosidade insaciável; um jornal é revirado pelas mãos indecisas de um homem, a avançar e voltar páginas que seus olhos percorrem em atenções de obstetra; dois jovens sorriem para as telas de seus celulares, enquanto conversam em toques de ombros; um cão estica as patas e alonga sonolência, deitado aos pés de seu dono; outro cão fareja o reconhecido ar do local que ele chama de casa.

Nesse ponto, o sol começa a se cansar da batalha.

Sob galhos e folhas, correm ondas de vida, ondas de som e de silêncio.

Sob a árvore, há a marola de humano cardume, a proteger-se no seco recife da sombra de todo o dia.


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