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  • luishborba

A fome do tempo

No sonho desta noite, viu-se livre de, pelo menos, quarenta anos, achando-se numa época em que tinha o cabelo mais longo, em que falava com mais pressa, época em que os mortos ainda não caíam perto dela.

E, desde que acordou, carrega o estranhamento vindo com o sonho: o abrir de olhos espantou a leveza fresca de uma vida que era mais fácil, trazendo-a para o desassombro da realidade lenta da velhice - o cansaço a lhe vestir os ossos, a pele desvestindo-se do viço numa cumplicidade com a rugas.

O estranhamento ao olhar a casa cansada, a mesma casa de quarenta anos atrás, e lembrar-se de suas jovens carnes de alvenaria que o sonho trouxe de volta.

O estranhamento ao olhar retratos em que sorriem, numa calma desavisada, aqueles já mortos e que, ainda há pouco, sorriam-lhe em sonho. Também o silêncio, a resvalar pelas paredes, e os ecos de conversas, brotadas durante o sono, a reverberarem dentro de si.

Vai passar o dia estranha.

Olha-se no espelho no desábito da vaidade, que a mulher desconhece as feições.

Vê em seu rosto as linhas - tantas linhas - criadas pelo caudaloso rio da vivência. Rosto que, nas lembranças trazidas pela madrugada, mostrou-se na época em que as rugas eram linhas secas e escondidas, enganadas pela tenacidade ainda intacta da pele em não lhes ceder sulcos.

Todos esses anos na mesma casa, na mesma cidade - imensa árvore com galhos de asfalto e duros frutos de cimento e pedra. Todos esses anos na comodidade de uma inconsciência conhecida: a fome do tempo.

Vai passar o dia estranha.

E habitada pelo estranhamento da lógica carregada de morosidade do tempo a consumir, com a mesma dedicação, todas as carnes.


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