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  • luishborba

Conhece a música que toca

A tarde caminha como o momento de todos os momentos de quando os ponteiros dos relógios passam do meio-dia. Alinha-se num encavalar de minutos, a carregarem e semearem obrigações na naturalidade habitual dos dias vestidos com os banais trajes da rotina.

Sentado em sua mesa, o homem colhe as suas obrigações encarando os minutos de quando em quando na pacificada convivência dos que não podem se ausentar um do outro - ainda que, vez ou outra, o homem maldiga a lentidão dos passos com que os minutos se movem.

Como nessa tarde, em que o tempo parece cansado - pisca os segundos numa indecisão de pestanas - fazendo com que o homem trabalhe redobrando o esforço para conseguir arrastar-se junto com o tempo até o final do dia.

Resolve ir até a cozinha: tomar um café pode fazer os minutos moverem-se aos solavancos, trazendo-lhe a grata surpresa de vê-los avidamente consumidos ao retornar a sua mesa.

Passa por outras mesas, todas povoadas por mãos carregadas de obrigações, todas encobrindo pernas desejosas da libertação de seus tampos de madeira.

Entra na cozinha, enche um copo com água, aperta o botão que lhe trará o café, bebe a água enquanto aguarda.

Num canto, há um rádio numa vazante a voz baixa. Conhece a música que toca. Aproxima-se do aparelho num aconchego de carinho recebido.

Há muito não a ouvia. A música, de tantas lembranças sepultadas, joga-se sobre ele na afoiteza dos que chegam sem aviso.

Nos olhos distantes do homem, a música é uma lápide etérea a marcar em espaço aberto o sepultamento e a ressurreição das memórias.

Pronto, o café esfria.


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