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  • luishborba

Viva casa Morta

Que olhos veem e não são vistos?

Na antiga casa, cantos de um branco vivo abrigam almas passadas a verem os dias e as noites numa prisão sem grades e de janelas abertas.

Ventania…

O vento varre paredes e telhados e não espanta nem dispersa olhos antigos a vigiarem um tempo em que o próprio tempo se esqueceu.

Uma respiração mansa vagueia pela casa, respirando uma vida ancestral de almas moldadas a cheiro de animais, a gostos de águas geladas.

Na vida atual da casa antiga, há homens de um tempo vivo a tentar dizer-se sobre tintas novas. Mas esse tempo se diz mudo, não ouvido - e não sendo ouvido, resta enclausurado entre portas antigas de batentes altos.

E os olhos que não são vistos, vêem.

Veem, respiram e se dizem na mudeza onipresente, na companhia em dias claros aos homens cegos - uma cegueira complacente a aceitar o esconderijo plácido das tintas brancas.

Luzes esquecidas acendem-se por entre aposentos, calados de vivas vozes mortas; o silêncio do passado canta na quietude da longa noite sem fim, da longa noite de lua cheia, na quietude de todas as noites - a voz do silêncio conta todas as histórias sabidas e as pressentidas pela casa.

Dentro da longa noite, há um sapo a gritar comunhão entre os tempos, um sapo atemporal a coaxar esse entendimento através dos séculos numa descendência eterna.

Próximo à casa, há um lago a pacificar a água - cúmplice líquida de conhecimentos passados, vigia atenta na perenidade do olho sempre aberto do lago.

Os olhos que não são vistos dividem com os homens o melancólico discurso dos sapos, o mesmo assanhamento matinal dos pássaros, a mesma companhia lisa das águas do lago, de onde, vez ou outra, um peixe arrisca um olhar assustado ao céu.

Na viva casa morta, as antigas paredes caiadas de um branco novo abrigam homens e almas - homens antigos que vêem com olhos que não são vistos.


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