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  • luishborba

Todos os dias, o mesmo chão

Pega a alça do balde cheio de água com sabão e seu corpo pende no esforço torto em lhe suportar o peso. Deixou a torneira pingando as gotas de uma repreensão, caso sejam vistas - na semana passada ouviu breve ladainha sobre o desperdício “que não sai do seu bolso” por deixar com que as gotas pingassem ao longo da enormidade do dia. Durante três dias, aplicou nos dedos a persistência paciente em fazer a torneira deixar de reclamar o lamento contínuo de soluços líquidos. Depois, esqueceu-se da reprimenda, cedeu aos argumentos da torneira e lhe permite choramingar o ritmado gotejar do desperdício que lhe é incapaz de controlar.

O peso do balde lhe cobra passos miúdos; a outra mão eleva-se na obrigatoriedade de carregar um rodo, enquanto um ombro é repouso para um pano de chão.

Mergulha o pano na água, torcendo-o na sem piedade de devolver ao balde o excesso de água que a gula o faz tentar reter.

Ajeita o pano no rodo em dobras repetidas na ancestralidade dos anos em que limpa o chão todos os dias - todos os dias, o mesmo chão.

As mãos empurram o cabo, criam um rastro úmido, recolhem-se, fazendo o pano lamber o mesmo caminho que acabou de molhar. Adianta-se para ganhar um pouco mais de chão, para molhar mais o piso, que espera pela assepsia do pano encharcado.

Avança pouco a pouco num elevar e abaixar o tronco sobre o rodo, a torcer o pano de quando em quando, a esgueirar-se entre prateleiras, a esforçar-se para atingir vãos e fretas em agachamentos reumáticos.

Durante algumas horas, a mulher dialoga com o chão uma conversa rotineira sobre limpeza e a renitência da poeira numa intimidade que outros olhos não percebem, desatentas que são as pessoas que pela mulher passam.

Ao final do dia, pano, rodo e balde voltam ao canto de sempre, num anonimato cúmplice ao da mulher - anonimato só quebrado pelo crachá que ela traz ao peito, preso por um alfinete.


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