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  • luishborba

O pânico e as tarântulas

Tanto e mesmo barulho todos os dias, tanta e mesma chuva seca a pingar cotidianamente problemas - tantos e mesmos a fazerem a paciência se alojar no silêncio de um compreensivo de um copo alcoólico. E de tudo e tantos e mesmos, o homem reclama.

As reclamações brotam-lhe pelos lábios em passos de pontas de patas das aranhas, despejando, nos ouvidos de quem o ouve, o desconforto do discurso estéril e cheio dos pelos irritantes de que as reclamações são feitas - e que, por carregarem sempre a mesma peçonha, são inoculadas pelo desinteresse das pessoas.

Hoje, o homem acordou com a tarântulas a passearem-lhe sobre os lábios, as patas pesadas por antecipadas preocupações. Ele busca reconhecer-lhes a origem vasculhando na memória os compromissos do dia. Mas não importa de onde vêm: há em seus dias um ninho de problemas a justificarem que libere pela boca os insetos peludos.

Sai de casa e, ao jogar o corpo para dentro do carro, assenta-lhe uma tontura que o faz sentir o veículo, ainda parado, mover-se. Dá a partida, segura o volante e mil formigas etéreas caminham passos miúdos por seus braços, pernas e mãos.

Abre os vidros, o ar que entra é pouco para lhe encher os pulmões, o esforço em puxá-lo traz apenas o desespero em pedir por mais; a manhã adquirindo uma claridade pastosa, habitada pela presença insidiosa e crescente do medo - o medo de olhar no abismo em que se crê à borda e onde vê balançarem as ondas da morte, a lhe chamarem em marolas escuras por um pulo sem volta.

Tenta controlar-se, mas acredita a fortaleza de si mesmo tão em perigo, que mil soldados da ansiedade arregalam olhos no horizonte que termina no parabrisa do carro - parede contra a qual parece ter se chocado, causando-lhe as dores que sente por todo o corpo.

Não sabe o que fazer. O barulho do motor vem de um lugar distante, de um mundo que não lhe pertence.

E as tarântulas estão recolhidas ao escuro da garganta, incapaz de articular-lhes as patas e fazê-las escapar pela boca num grito de socorro.


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