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  • luishborba

A próxima sombra

A serra dissimula atrás de árvores seu sinuoso corpo moldado a curvas e subidas, esconde-se aos olhos que a enfrentam num perene receio de ser abandonada, de que os olhos, assustados com a quantidade de curvas com que se encolhe e com a longa petulância com que se estica ao céu, que os olhos decidam por evitá-la.

Um homem sobe a serra e, mal lhe atingindo a metade, já há algum tempo espicha o pescoço para tentar enxergar além da próxima curva e ver-lhe o fim.

Após dois dias de caminhada, os passos, esquecidos de juventude, sucedem-se na imperiosa ordem do cérebro de que não podem cessar. O suor é monólogo a si mesmo de um cansaço que os músculos gritam sem sucesso em serem ouvidos.

Meses atrás, ante o olhar cada vez mais enfraquecido de seu cão doente, o homem soltara a decisão gerada na mesma velocidade com que o animal piorava: nascia uma promessa.

De modo que, após três dias em que a cumpre, o homem é todo pés a se empanturrarem de terra em quilômetros de um banquete servido ao sol, pés a se livrarem de pedras no descaso de chutes cegos, pés a blasfemarem os buracos diante do insulto de torções.

E agora, a serra.

O homem olha uma curva à frente, vê o caminho insinuar-se ainda mais para cima. Para. Encosta-se em uma árvore, bebe um gole de água, limpa o suor da testa. A respiração é um curto arfar de peito, na custosa inspiração do ar quente. As pernas o fazem esquecer de tudo o mais que há em seu corpo: ardem ossos e músculos numa fogueira de cansaço. A mente é animal perdido no vale que o rodeia. A fome passeia-lhe pelo estômago, perdida, mostrando-se e se escondendo numa indecisão de gritos e mudez. Pensa em sentar-se, olha a tarde arrastar o sol sem consideração com suas dificuldades - e sabe que precisa chegar antes que a tarde desista do mundo mais uma vez.

Mira a próxima árvore, a próxima sombra, confere a água que lhe resta.

Vai subir de sombra em sombra, de árvore em árvore - mãos estendidas pela serra a carregá-lo ao topo.


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