Buscar
  • luishborba

Cotidiano

A luz acesa na cozinha é aviso da presença humana tanto quanto o cheiro de café.

A madrugada, que ainda cai sobre o mundo, está com os minutos contados, resta-lhe não mais do que meia hora - mas ela ainda não o pressente. Há de se louvar a abnegação desse ser a carregar seu imenso corpo escuro sobre todas as coisas, por todas as noites. Cobrir meticulosamente todos os espaços com seu corpo trevoso é permitir uma sinfônica profusão de sons que os dias desconhecem: a conversa ininterrupta de insetos, o coaxar de sapos, a movimentação e diálogo de criaturas avessas à luz.

Dentro da casa, a mulher termina o café rápido, pega a bolsa, apaga a luz da cozinha e deixa a moradia novamente entregue à escuridão.

As luzes de alguns postes iluminam o caminho de terra, que lhe consumirá vinte minutos de caminhada. A mulher sabe as montanhas ao redor de si - imponência a cobrirem-se de mata numa aparência de rugosa pele verde à luz do dia e que, agora, dizem-se pela sonora rede a mostrar o que os olhos não podem ver. Mas a mulher não mais presta atenção às montanhas - suas grandiosidades desde sempre lhe rodeiam os caminhos.

A mulher pisa o chão povoado de pedregulhos, e o som de seus pés mascando a terra vai calando os insetos à medida que ela avança. Mas há ainda o dialogar com desespero de muitos outros à distância, há a intromissão raivosa dos latidos de um cão no corpo da noite, proferindo ofensas a um perigo pressentido.

Falta pouco para a mulher chegar ao trabalho.

Incomodada pela claridade a espiá-la sobre uma montanha, a madrugada começa a recolher-se, deixando as criaturas - as suas criaturas -, abandonadas a uma orfandade que logo lhes esconderá as vozes.

O sol joga-se sobre o mundo sem ao menos o pudor de um aviso. Assustada, a neblina, a pairar sobre a mata, inicia fuga desorientada, espalhando umidade e escondendo caminhos.

A mulher segue seus derradeiros passos, a maioria dos insetos está muda, o coaxar dos sapos submergiu em águas rasas.

E o dia ajeita seu corpo claro sob a atenção silenciosa e autoritária das montanhas.


0 visualização0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

O que há são esquinas

Quando fala, a voz sai pequena como o seu corpo - os braços numa timidez de antebraços; os dedos ainda na infância e ele já velho; as pernas que não levam o tronco muito longe do chão. Tudo nele é com

Saber as horas insípidas

Todos os dias, bem cedo, a filha o coloca sentado na porta de casa. Antes de sentá-lo, ajeita a cadeira na calçada, conferindo sempre de duas a três vezes sua posição, sua firmeza. Coloca-o sentado nu

Tudo (quase) como sempre

A manhã bateu, como sempre, pancadas de débil luz na janela do quarto. Levantei-me devagar, como de costume, para não te acordar. Lembrei-me. Olhei o seu lado da cama, e o travesseiro intacto, a colch