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  • luishborba

Conversas

Pai e filho ajeitam um, dois latões de leite na carroça. O menino levantou-se faz pouco tempo, saiu da casa esfregando os olhos como se a escuridão o incomodasse, ouviu o grito do pai a chamá-lo e não teve tempo de esboçar um bocejo antes de sair correndo na direção do curral.

Ali, três vacas dividem um pequeno espaço na inalterada mansidão bovina - olham-se, olham ao redor com negros olhos numa aparente desatenção do mundo. Mas basta-lhes o insulto de uma ameaçadora mão para girarem os corpos no sem rumo de uma fuga, para chocarem-se umas as outras, baterem nas madeiras do curral no inútil desespero a procurar uma saída que por enquanto não têm.

A claridade do dia já mostra o orvalho aninhado sobre as folhas, num espreguiçar de gotas, a aproveitar a proteção da madrugada. Com o sol, o orvalho começa a se recolher, incomodado pelo calor a lhe agulhar a pele líquida.

Os caminhos de terra da casa ao curral, do curral à estrada despertam de um quase sono, uma letargia causada pelo silêncio da noite, pela ausência do desconforto de botinas e rodas e cascos e patas a lhes causarem cicatrizes, a espalharem suas pedras, na terra fina, no desajeito de um jogo não combinado.

O menino acomoda-se na carroça, o homem ajeita o chapéu, puxa as rédeas na ordem de movimento ao cavalo. O trote sonolento do animal é despertado pelo vigor com que o homem torna a mexer nas rédeas.

A carroça sacoleja, os latões conversam na metálica fala dos choques entre si, nos líquidos argumentos do leite, o menino olha o sol passar por entre as árvores, um cão salteia de lado a outro, latindo orientação ao homem, fustigando o cavalo, o homem guia o animal em arranques nas rédeas - saem do sítio e tomam a estrada de terra que leva ao vilarejo, cinco quilômetros adiante.

A volta terá o blém-blém dos latões vazios, o cão, aos pés do menino, dizendo cansaço na língua que não para dentro da boca, o ranger de rodas, machucadas pela terra dura e pelas pedras, o bufar do cavalo em esforço de subida.

A volta terá pai e filho a se dizerem companhia na comunhão muda do toque de suas costas.


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