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  • luishborba

Todos os dias, o dia

O ambiente é um pouco escuro, um vitrô no alto, quase rente ao teto, deixa uma claridade envergonhada entrar. Há uma luminária com luz fluorescente sobre uma mesa de madeira. Tantos sulcos, rachaduras, cicatrizes no corpo da mesa parecem contar histórias de torturas, mutilações levam a pensar em hordas de inquisidores a retalharem a muda carne de madeira em sessões onde a piedade seria proibida de deitar olhos.

Sentado numa cadeira giratória, em frente à luminária, um homem movimenta-se tomado de uma lentidão anciã a lhe exigir colocar e tirar óculos, a aproximar-se da mesa, afastar dos olhos o objeto que tem em mãos.

Vasculha potes cheios de parafusos, porcas. Por toda a parte, restos de fios espalhados sobre a mesa ou dominados por uma sonolência antiga, a mantê-los enrolados pelo chão, pelos cantos.

Calos vestem as mãos do homem, que tem dificuldade em segurar porcas e parafusos menores; que sofre com um tremor incessante, nascido suavemente, quase se disfarçando em espasmo para que o homem o deixe ficar. Apesar do incômodo, o homem não luta contra a turbulência de suas mãos - em verdade, mal lhe presta atenção: curva-se sobre a mesa, segura chaves de fenda e alicates com uma intimidade tão antiga quanto o sustento que as ferramentas lhe garantem. E os olhos seguem sem se decidirem se querem ou não os óculos: focam e desfocam e não ajudam a fazer com que um fio retorne à vida uma tomada, com que um parafuso se enrosque sem esforço na cavidade escura que o espera.

Além do barulho, sem ordem, de desencapar, apertar, torcer, girar, furar há o ruído de um rádio, a alternar a estática e a ininteligível fala de um locutor exaltado.

Um espelho, a suas costas, guarda em silêncio a posição empoeirada de cada elemento - guardião desnecessário de uma mudança impensada de lugares: nada ali tem a menor intenção de se mover.


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