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  • luishborba

Horas sem fio

Quando os moradores lhe disseram que instalariam uma guarita em um terreno vazio do bairro, logicamente ele gostou.

Afinal, horas a fio ao ar livre não é o melhor modo de passar os dias: as chuvas sempre se anunciam nas explícitas carnes das nuvens, mas nem sempre a mão de concreto de uma marquise é suficiente para afastá-la; o sol não se deixa calar facilmente, e a proteção de longas mangas de camisa e boné não impedem o discurso de calor de lhe incomodar o corpo. Há ainda o vento e sua incorrigível mania de abraçá-lo e tocar-lhe a pele mesmo que camadas de blusas tentem manter o vento afastado.

De modo que foi com ótimos olhos que viu a estrutura de fibra de vidro ser colocada quase rente ao meio-fio. Três janelas de vidro deixam ver o movimento da rua, há espaço para guardar sua marmita, um banquinho para eventuais e controlados descansos e a benevolência do filho do morador mais próximo em permitir que ele se utilize do wifi da casa.

A rua está deserta. Vez ou outra há o espasmo de um carro, que ele acompanha o destino com movimento lento de cabeça. A eventualidade de um passante desconhecido o obriga a lhe acompanhar os passos até ter certeza de a rua novamente livre.

Tira os olhos do celular e vê um fio de água escorrer do outro lado da rua, margeando a sarjeta como se só soubesse caminhar escoltado, para precipitar-se num bueiro sem resistência alguma à queda.

Fica um tempo olhando a água, distrai-se da rua, do celular. O fio aumenta, há mais água a desabalar-se rumo ao bueiro. O homem olha a rua acima e abaixo, volta a atenção ao celular em toques desatentos, a criarem um errático caminho sem pegadas e destino.

Olha as horas e sempre sente o tempo passar aos solavancos, órfão de uma sarjeta a guiar-lhe o rumo, carente de um lugar onde pudesse abrigar em ordem os minutos - ainda que fosse um bueiro.


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