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  • luishborba

Sossego, sim, sossego

O vento cismou de dar todos os passos de uma só vez, tropeçando em si mesmo no desequilíbrio dos bêbados, chocando-se contra a janela do quarto a gritar num desvario contínuo e incessante.

O homem olha a janela como se, ao olhá-la, pudesse calar o vento. Mas o destempero tem ouvidos somente ao próprio descontrole - e o vento segue a pregar o caos pelas frestas da janela.

O homem olha as horas, olha a mulher ao lado, senta-se na cama.

O sino da igreja combate a pregação do vento com um ordenado sermão de badalos. O homem se pergunta se acorda ou não a mulher. Mas nem o ranger de estrados da cama a fizeram se mexer - e ele maldiz o seu sono por não tê-lo ensurdecido como o sono da mulher a ensurdeceu.

Levanta-se com cuidado para não acordá-la, pois às vezes o sono se assusta com as vozes mais baixas e se esconde onde só uma nova noite poderá achá-lo.

Caminhando até o banheiro, o homem boceja, aperta com os dedos os cantos dos olhos, passa a mão pelos cabelos no fresco cansaço que sempre reluta em abandonar os corpos nas manhãs.

O sino recomeça seu chamado às almas crentes; o vento sossegara, mas instigado pelo badalar ritmado, retoma os gritos contra a janela.

O homem volta para a cama, deita-se de lado, a cabeça voltada para a mulher. O seu sono é já morto, resta apenas o esqueleto amorfo de uma preguiça absorta. O dia pede coisa alguma aos dois, oferecendo-lhes, noite após noite, rasas horas plenas da pompa da simplicidade.

O homem coloca a mão nos cabelos da mulher com cuidado, com a leveza que falta ao vento, sem perceber que já há algum tempo ela olha a parede vazia e presta atenção ao raivoso rugido na janela.

Quietos, homem e mulher velam o sossego do mundo.

Sossego, sim, o sossego.


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