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  • luishborba

Gênesis

O deserto era uma vegetação rasteira, soprada por um vento que batia nas costas do homem como a conduzi-lo àquele espaço vazio. Uma avenida atrás de si rugia a ferocidade incessante de pneus no asfalto, um guinchar repetitivo a dizer sempre a mesma pressa - que o homem não tinha, pois asfalto algum o levaria ao destino que lhe faltava.

O homem sentou-se numa mureta e seu olhar escorria sobre a vegetação, interrompendo-se em uma solitária árvore a expor a soberania de galhos desnudos de folhas - uma árvore sem folhas não basta nem a si mesma.

Levantou-se, deu uns dez passos com o vento a lhe soprar o rosto, absorto ainda da ladainha dos pneus, uma contínua justificativa da necessidade de continuarem a buscar mais e mais asfalto. Caminhou dez passos e parou - seguir adiante seria encontrar outros desertos, com mato mais baixo ou mais alto, alguns apenas terra, muitos outros cheios de prédios. Mas todos desertos cercados pela sinuosidade dos asfaltos jamais silenciosos.

Voltou a sentar-se na mureta, passou a mão na cabeça do cão - que sempre a deixa ao alcance de seus dedos -, o homem deixou o sol encurtar-lhe a sombra enquanto olhava, sem ver, os carros. O cão tentou encostar-lhe na perna, contentou-se em alongar o pescoço para que a mão do homem lhe enchesse a cabeça, olhos, focinho, pagando-lhe a chuva de dedos com lambidas esporádicas.

Entraram na vegetação rasteira, passaram pela árvore e sua imponência vazia de galhos secos, o mato cobrindo os pés do homem numa mansa fala ressequida a cada passo.

O som dos carros chegava abafado - uma monocromática voz metálica dos motores incapaz de incomodá-los.

Desde então, o cão fareja os arredores do barraco, vez ou outra segue o amigo no caminho de mato pisado que a ventania dos pés do homem criou.


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