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  • luishborba

Epitáfio

Aquele foi o dia em que tudo acabou.

É claro que isso é força de expressão, sei que, na realidade, aquele foi o dia em que definitivamente aceitei que tudo tinha acabado.

Estávamos visitando um cemitério muito grande - sim, também sei que isso soa como um clichê, mas a realidade não se importa com filigranas para acontecer. Estávamos naquele cemitério, à procura de túmulos de pessoas famosas, quando nos separamos um do outro. Não foi proposital: peguei uma rua à esquerda, ela deve ter continuado em linha reta e entrado por outra rua mais à frente - quando percebi, não a via.

Vasculhei ao meu redor com os olhos, não a encontrei, mas pensei que ela sabia onde eu estava e que logo apareceria - a gente sempre acha que o outro vai nos encontrar.

Não sei quanto tempo se passou, pareceu-me muito, mas não deve ter sido, quando ouvi o meu nome.

Ela também havia se perdido de mim e me chamava.

Em meio a tantas lápides, não consegui vê-la. O estranho é que eu não conseguia ter certeza de onde sua voz vinha.

Gritei uma vez “aqui”, e achei aquilo ridículo. Um jardineiro, que cuidava das flores de um túmulo, olhou para mim com certo espanto - ao menos eu senti espanto em seu olhar -, e eu quase lhe pedi desculpas.

Ouvi meu nome por três vezes e, então, silêncio.

Olhava as lápides: havia tanta gente conosco, ainda que estivessem mortas, e não havia mais nós, como há muito deixáramos de existir. Caminhando em meio a tantas pessoas esquecidas, fui tomado subitamente pela certeza de que, quando a reencontrasse, eu olharia para uma estranha. Uma estranha com quem eu me acostumara a dividir a cama nos últimos quarenta e cinco anos.

Tive vontade de me encolher atrás de um daqueles túmulos, petrificando-me, tornando-me lápide de mim mesmo, e torcer para que o silêncio da sepultura contasse a ela toda a verdade, poupando-me o desgaste.

Você me entende, não é, querida?


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