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  • luishborba

À noite restam algumas horas

A noite é maré cheia a formar o manso lago escuro da madrugada. O vento não mexe uma franja da escuridão, que ainda mantém-se impassível ao frio que sobe da terra numa silenciosa e constante provocação. A noite segue a incentivar o abraço do sono nos corpos que se entregam ao seu enlaçamento.

Deitada, a mulher se entrega ao desconforto de um sono alquebrado na poltrona de um quarto de hospital. Poucos minutos antes, esforçava-se para continuar acordada na atenta vigília aos aparelhos ligados ao corpo alojado na cama à sua frente. A cadência do ventilador a mandar ar ao paciente, o compasso ritmado de um bip foram dando razão ao discurso mole do sono, discurso enfatizado pelo cansaço de noites anteriores, em que a preocupação era maior, posto o risco de morte mais eminente, o que a fez repelir o abraço e livrar-se da sonolência.

De modo que, a um piscar de olhos, seguiram-se outros cada vez mais espaçados; a cabeça pendeu para um lado, encontrando um suporte sem conforto, mas estável - a mulher dorme.

O bip do aparelho é mantra a espalhar pelo aposento o aviso de que a vida segue garantida. A noite acompanha-lhe os passos, arrastando na cadência de sempre o negro corpo, preocupada apenas em cumprir o horário em que deve se retirar.

A mulher dorme segura de tudo estar como sempre: os passos sem pegadas da noite, o abraço convincente do sono, a marcha constante do bip - farol sonoro a dizer vida em soluços de voz.

Então, o bip se cala. Sem qualquer alerta, cala-se o som espaçado que era a conversa do doente com o mundo, interrompe-se o pulsar ritmado da declaração de que tudo estava bem. Irrompe pelo quarto o grito estridente do aparelho num desesperado discurso de despedida.

Assustado, o sono tenta o impossível de se manter abraçado à mulher.

À noite restam algumas horas. Cumpre-lhe, na cadência de sempre, prosseguir em seus passos.


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