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  • luishborba

Ao dia, mais um dia

A ninguém da sala incomoda o zunido incessante a sair das luzes fluorescentes, o dia todo acesas. Prestando-lhe atenção, percebe-se o quanto o ruído desconcentra: uma sílaba constante a sair de garganta com fôlego infinito. Mas as três pessoas na sala não se importam. Estão presas ao raso volume de papéis espalhados sobre suas mesas - papéis trazidos pelo fluxo de uma maré agora morta.

Uns raios de sol bisbilhotam a sala na horizontalidade que uma persiana permite. Mostram-se muito pouco - uns parcos filetes de luz a escorrerem por uma parede e por alguns tacos no chão numa timidez tal que não trazem nem mesmo calor.

Em espaços irregulares de tempo, o som de frenéticos dedos em um teclado parece despertar a sala, abafando o zunido das lâmpadas, criando um alarido de conversa ao incentivar outros dedos a colocarem outros teclados a falar. Mas predomina o discreto discurso das folhas de papel sendo viradas na lentidão de atenta leitura. Vez ou outra, a batida seca de um carimbo é o aviso da imprevisibilidade na calma vida das folhas, sujeitas ao arroubo de decisão que relampeja em uma das três pessoas.

Quando alguém se levanta e caminha pela sala, há a eminência de uma rebelião coletiva, em que todos se levantariam e deixariam os papéis livres da ameaça do carimbo, saindo a maldizerem a gritaria irritante das lâmpadas. Mas o movimento é apenas a pacífica busca por um copo de água, ou a inadiável visita controlada ao banheiro - não se é permitido conjugar, nessas escapadas, o verbo da frequência.

Em determinado momento, o sol se cansa de ser o mesmo filete de todos os dias e se retira da sala em silêncio, deixando o distendido corpo da persiana entregue à inutilidade.

Ao final da tarde, papéis arrumados sobre as mesas para o dia seguinte, computadores desligados no preciso fim de expediente, as lâmpadas sempre são caladas pela diligência de um dos três, incapazes que são de não atenderem à ordem colada embaixo do interruptor: “O último a sair, apague as luzes.”


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