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  • luishborba

No céu de nosso quarto

“O vento da noite gira no céu e canta.”

Nas noites em que o sono se recusa a guiar a vigília para o vale profundo a que a leva todas as noites, é possível perceber o giro, o canto.

Como agora, quando a nossa cama é a plena expressão de sua ausência e o abrigo torto de meu corpo insone.

E a insônia me abraça e me cutuca os nervos para mostrar a colcha lisa onde deveria haver o contorno de seu corpo cansado; a insônia me abraça seu abraço frio e me mostra o travesseiro livre do peso de sua cabeça; instiga-me a correr mão pelo lençol e escutar com os dedos a fala gelada que o seu vazio diz.

Estou cansado, há dor pelo meu corpo, há uma ardência em meus olhos a conversar com a insônia um diálogo de cumplicidade.

“O vento da noite gira no céu e canta.”

Eu o ouço na penumbra de nosso quarto (deixei apenas um abajur aceso, na tentativa, até aqui vã, de dar forças ao sono). Eu sinto-lhe o giro no frio a entrar pelas frestas da janela e chegar-me ao rosto.

Lembro-me de que, há dois dias, levantei-me no meio da noite e vi, na claridade tímida que saía do banheiro, seu corpo descoberto: suas pernas soltas sobre a cama num silencioso concerto que sempre deixa atento o meu desejo; suas costas, tão claras quanto a penumbra permitia, levavam meu crescente desejo a lhe ouvirem os pedidos pelos meus dedos.

“O vento da noite gira no céu e canta.”

No céu quadrado, branco e mal iluminado de nosso quarto, o vento gira desorientado dentro de uma noite sem fim, cantando a ausência de seu corpo na desafinada falta que você me faz.


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