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  • luishborba

Onde, a lua?

Não se consegue avançar em caminho que não se enxerga.

Desce do ônibus já receosa. O veículo chegara até ali porque os faróis têm a constante voz de luz a espantar a escuridão. Ao ver as lanternas vermelhas se afastarem, arrepende-se de ter descido em seu ponto. Por outro lado, o que fazer? Para onde teria ido? Não tinha opção.

Os postes, todos os postes da rua, combinaram uma mudez completa, não trazem nem mesmo um cochicho de luz - sim, porque algumas vezes ela tem de voltar para casa tropeçando no medo de um perigo que a penumbra de luzes fracas, sadicamente, mostra ou esconde.

Mas hoje até as luzes das casas aderiram a esse voto de silêncio, a essa cumplicidade de deixar a noite dizer-se a plenos pulmões sobre todas as ruas e casas.

De vez em quando, o assobio curto dos faróis de um carro vergasta o corpo da escuridão, abrindo uma ferida de luz rapidamente cicatrizada.

Começa a cantarolar uma música de sílaba única, em ritmo que acabou de inventar, na esperança de que a coragem acompanhe os sons trêmulos que lhe escapam da boca e dêem firmeza aos passos, que seus pés hesitam em começar.

Qualquer ruído que vem do escuro gela seu estômago, interrompe o arremedo de música para plantar a semente de um grito em sua boca, paralisa-lhe os pés na antecipação de desenfreada correria.

O céu está tão escuro que parece nem existir. Nada existe além das trevas povoadas por cães e sustos.

São três quarteirões até sua casa, e poder abrigar-se na protegida noite de algumas paredes, aninhar-se no conhecido escuro que umas velas pode

afastar, recolher-se a uma tentativa de sono, após um banho frio.

Basta-lhe convencer os pés a manterem os passos.

Basta-lhe chegar.


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