Buscar
  • luishborba

O quarto eterno

O quarto é uma música congelada no tempo. Raramente aberto nos últimos vinte anos, guarda uma sonoridade fria, um sol antepassado incapaz de trazer calor; emana o hálito mofado de coisas velhas, posto que ausente de humanidade.

Sobre a cama, um travesseiro ligeiramente fora do esquadro da cabeceira, uma colcha dobrada com a pressa desatenta de jovens mãos.

A um canto, dois tênis discutem perenemente o descompasso de não estarem lado a lado; um calção recosta-se à parede num cansaço incessável, dormindo há anos um sono que não lhe perguntaram se tinha.

A mulher, agora velha, durante todo esse tempo, guardou a chave da porta com a sacrossanta religiosidade dos devotos.

Uma vez por semana, ela mesma faz cuidadosa limpeza, aspirando o pó e movendo o menos possível os objetos.

O marido sempre foi contra manter essa cicatriz dentro de casa, brigou com a mulher para que guardasse algumas poucas coisas. Como castigo, foi proibido de entrar no aposento.

O homem morreu há pouco mais de dez anos, e tudo que o lembrava foi se dissolvendo pelos desinteressados dedos das mãos da mulher, num esfacelamento imperceptível, a poupar somente um retrato, a restar resignado esquecimento em meio a outros retratos sobre uma cômoda.

A velha não mais precisaria trancá-la, mas a porta segue fechada, a chave escondida numa inútil proteção contra mãos inexistentes.

Desde que o marido se foi, a velha passa mais tempo no quarto.

Sentada próxima à escrivaninha, saem-lhe da boca palavras cheias de um cansaço antigo. Em resposta, ouve a repetição de frases conservadas há mais de vinte anos, a repetirem uma ausência para a qual a velha é eternamente surda.


2 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

O que há são esquinas

Quando fala, a voz sai pequena como o seu corpo - os braços numa timidez de antebraços; os dedos ainda na infância e ele já velho; as pernas que não levam o tronco muito longe do chão. Tudo nele é com

Saber as horas insípidas

Todos os dias, bem cedo, a filha o coloca sentado na porta de casa. Antes de sentá-lo, ajeita a cadeira na calçada, conferindo sempre de duas a três vezes sua posição, sua firmeza. Coloca-o sentado nu

Tudo (quase) como sempre

A manhã bateu, como sempre, pancadas de débil luz na janela do quarto. Levantei-me devagar, como de costume, para não te acordar. Lembrei-me. Olhei o seu lado da cama, e o travesseiro intacto, a colch