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  • luishborba

A chuva cai, o vento geme

A chuva cai, o vento geme - e parece não haver cobertor que aqueça o homem. O sol bem que tentou fazer a parte que lhe compete, bafejando raios na janela, diante da qual o homem está sentado. Mas é pródiga a colheita de nuvens num céu semeado de tempestade - e logo tudo o que chega à janela é a chuva que cai, o vento que geme.

Há pouco movimento na rua em dia chuvoso, pouco a distrair o homem e afastar a atenção voltada ao frio que rasteja por entre o cobertor, pelas frestas de sua blusa para alisar-lhe a pele com mil dedos gelados.

O desconforto o leva a franzir a testa numa raiva infrutífera, a emitir lamúrias mudas em lábios semicerrados. Atrás de si, há a presença silenciosa da mesa de jantar e de um entrecruzar de pernas das cadeiras vazias.

Para o homem, os minutos são a intermitência de pingos no vidro, a marcarem o início de uma tarde, que caminha num líquido ritmo para o fim, num dia em que a monotonia da rua o arrastou na inexpressiva delicadeza do tédio.

Como em todas as tardes, hoje desafiando a chuva com a óbvia proteção de uma sombrinha, uma mulher passa com a rotineira pressa. Daqui a pouco, fará o caminho de volta, carregando pela mão o filho.

E, todas as tardes, a mulher que caminha com o filho diz ao homem que a noite está próxima, que a janela, em breve, será pintada de escuridão.

Uma outra noite avança no homem. Começou com uma tarde a lhe penetrar pelos poros e marcar, nos cantos dos olhos, atalhos em finas linhas de caminho sem volta.

Tanta chuva caiu, tanto vento gemeu, que os atalhos lhe tomaram o rosto, alastraram-se-lhe pelo corpo.

E criaram caminho único a indicar uma breve escuridão sem fim.


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