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  • luishborba

Azuis

Três pássaros passam soltando gritos horizontais pelo espaço. Olha as aves, mas presta atenção no céu além: mescla de cinza e negro da opulência volumosa de nuvens, unidas pela cumplicidade do vento. Vento que lhe sussurra, desde a noite anterior, uma umidade suave com discursos de prevenção sobre como seria o dia.

Solta as amarras, não lhe há opção de escolha. O ajudante movimenta-se pelo barco cumprindo a obrigação diária com o resignado automatismo daqueles a quem não cabe pensar.

A embarcação negocia as velas com o vento e renova a liquidez salgada em seu casco numa crescente de velocidade.

À boreste, vê o horizonte mostrar a líquida união de céu e mar para muito além da arrebentação. Não navegará naquela direção, mas sabe que o “muito além” é apenas a navegável distância que a chuva tem para chegar até eles.

Não há sol algum. Mas a claridade do dia é vitória de sua luminosa teimosia em não aceitar calado o trabalho compacto das nuvens.

O mar se veste de águas claras e escuras, a se mesclarem no líquido continente em que habitam numa sincronia de aquoso discurso. O mar é corpo único a balançar águas na convivência pacífica de vagas.

Uma pequena âncora resta em seu seco quintal na proa. Não precisarão dela hoje, há uma rede a ser lançada que pede o deslizar de barco para semear-se de peixes.

O ajudante começa a preparar a rede, o homem vem em seu auxílio. Há ainda a tangente de algum voo do barco pelo mar, mas os homens têm de estar prontos.

Um pedaço de céu mais renhido esbraveja a agressividade de um raio. Parece que não vamos escapar, pensa o homem com a despreocupação de quem apenas observa.

E, enquanto gotas de chuva vêm chegando silenciosamente próximas ao barco, o sol, à boreste, rasga nuvens e toca a superfície do mar, deixando o claro e o escuro das águas se dizerem em tons de azuis.


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